Festa no Zoo

Pessoal, gostaria de trazer a vocês um dos inumeros contos escritos pela minha estimada mãe.

Apresento para vocês a festa no zoo:

     As cidades são semelhantes em muitos aspectos. Na soma dos acontecimentos quase não diferem, parecem copias alteradas apenas por situações geográficas. Pessoas de modestas a elegantes, incultas a intelectuais, transitam pelos mesmos locais, inalam do mesmo ar numa vasta diversidade de classes, raças e cores. Sempre há de se encontrar nesse contexto figuras excêntricas, acentuando seus dotes fisionômicos ou se excedendo em adornos. Na imensidão do reino animal a mente racional e fecunda gera semelhanças entre os gêneros moldando traços e características, dispondo um esbanjamento de criatividade hilariante.
Conta-se que numa pequena cidade do agreste, originou dentro de uma numerosa família sertaneja uma figura explicitamente distinta. Os parentes não fizeram caso, era apenas uma criança que necessitava de cuidado e amor. Todos se calaram, se houvesse algum constrangimento era guardado a sete chaves. Alguns o consideravam um anjo caído do firmamento, por circunstancias um tanto sombrias ao mesmo tempo cômica.
sapo_que_veste_a_barba_impressao_em_tela-rf01febbc375c4ea8adb4d752410562eb_xiyw_8byvr_630     Acreditava-se que certa feita aos arredores celeste, uma cegonha voava levando em seu longo bico uma estimada encomenda envolvida em delicada fralda azul, não suportando o peso do vigoroso bebe decidiu descansar numa convidativa nuvem, esta cedendo fez com que o conteúdo lhe fugisse aos cuidados projetando-o céu abaixo, a pobre e indefesa criança esborrachou-se no chão dando ao seu aspecto uma indiscutível singularidade. Desconcertada pelo incidente efetuou assim mesmo a entrega sem deixar nenhuma explicação. A criaturinha cresceu forte e robusto dotado de grande eloquência e um vernáculo invejável, orgulho da família. Pegou a maior idade e foi em busca de novos horizontes sonhando uma vida melhor referenciada por gravuras encontradas no limitado acervo de livros da única escola existente nas redondezas.
Por onde passava logo se notava sua parecença, na verdade seu aspecto fazia menção a um batráquio, mais precisamente um anuro, nesse caso, um sapo. Sua parte traseira era visivelmente rebaixada, a dianteira exibia uma enorme protuberância, a boca sinalizava de orelha a orelha, seus olhos arredondados eram extremamente salientes, para alguns qualquer semelhança era mera coincidência ou pura maldade. Foi reverenciado com um nome que lhe fazia justiça, de Sapo Boi o batizaram, particularidade não revelada ao mais interessado.
Contraiu casamento com uma Perereca pouco qualificada para o cargo, desconfiavam que não falasse o mesmo dialeto. Um casamento consolidado por circunstâncias intrigantes que persistia anos a fio numa atuação teatral, em hipótese alguma colocaria em risco seu habitat natural, tinha um nome a zelar e desprovido de forças para lutar contra águas turvas a essa altura do campeonato, ignorava os fatos. Trouxe ao mundo dois pequenos girinos, tal qual a cara do pai, isso era fato.

     Com o passar dos anos sua aparência apenas se acentuou mais, passou a usar um cavanhaque tipo barba de bode a fim de amenizar sua face circular, a avantajada cabeça era evidenciada pelos poucos cabelos que ainda lhe restavam, a pança já não lhe cabia dentro das vestes, abotoadas pareciam estar em constantes risos para quem as observasse do restante apenas se avolumaram no ritmo dos acréscimos.
Seu caráter vacilava de um extremo a outro, enquanto sua consciência conspirava com seus ensinamentos, suas ações o mantinham fiel à vontade incondicional da satisfação do ter, de vencer custasse o que custasse. Estava perpetuada em sua memória lembranças de sofrimento, humilhações e fome, motivação para tanto não lhe faltava, tomava isso como base de sustento e incentivo.
Certa feita, ao longo de sua caminhada se enrabichou com um quati perturbado pela sua sexualidade indefinida e um pavão que se considerava um deus, um belo trio de oportunistas afeiçoados a vislumbres compôs a corja. Camuflavam seus verdadeiros intentos em obras sociais e humanitárias, se aproveitavam da desgraça alheia para se projetarem, iludiam os desavisados e tiravam vantagem dos de mente fraca, tudo em nome do bem num exercício da fé e compaixão não fazia parte do vocabulário, era considerada uma palavra injuriosa e fora de uso. Em detrimento da extrema satisfação dos três seres pluricelulares, se valiam de tudo, morcegavam os pequenos fio de vida de outros seres vivos que pareciam responder aos estímulos substanciados por modificadores de consciência, uma troca nada vantajosa para os indefesos e atordoados doadores.

     O Quati era mais reservado, tinha uma estatura baixa, sua feição não lhe era muito favorável. De voz mansa e rouca seduzia as almas Music-Peacock-smalllançando mão de uma doença que há muito tempo o acometera. De pronto nada tinha que o desabonasse, apenas uma coisinha de caráter no âmbito particular. Lançara-se nesse delirante drama a fim de abafar seu intrigante estado de libertação sexual, precisava urgentemente desviar os olhares indiscretos daquela situação periclitante, não jogaria assim gratuitamente fora, por mais almejado que fosse esse tal desassombro o seu status na comunidade, suas conquistas em prol dele mesmas. Seus dias eram recheados de grandes conflitos, uma vida dupla. A esposa mais parecia uma víbora, destilava veneno gratuitamente, uma coitada mal amada. Espécies diferentes certamente não teriam um final feliz, isso já determinava a natureza. Em sua obcecada conjectura arranjaria um modo apropriado de usar suas garras longas e fortes, para tanto é que as tinha, estava disposto a focinhar uma boa oportunidade de praticar alguns truques aprendidos a fim de sossegar a mentes mais afoitas. Seu lugar em cima do muro era cativo, já fazia parte da sua índole não se manifestar, trabalhar as escuras era seu forte, próprio dos indecisos.

     Com o Dr. Pavão o negócio era bem outro, esse sim gostava de sempre estar em evidencia, um perfeito amante de holofotes. Com sua estatura esbelta e chamativa não era difícil passar despercebido, mesmo assim fazia questão de patrocinar situações onde pudesse pavonear a vontade, não suporta ter seu território invadido e tampouco dividido com alguém. Era inadmissível roubar-lhe a cena, o espetáculo pertencia somente a ele, necessitava de toda atenção disponível para cinematograficamente abrir sua imensa cauda provocando um ruído que lhe é peculiar e assim completar sua representação. Dotado de boa eloquência, apesar de oca em substancia, protagonizava seu próprio festival. Seu mundo egocêntrico, ilógico e insensato o tornara possuidor de temperamento imprevisível. Oculto mantinha um lado sombrio, sofria em seu interior por alguma situação mal resolvida. Um considerável reduto de insanos despejava um doentio apreço.
Distintamente engrossavam as fileiras do oportunismo, convergindo exatamente para o mesmo ponto, mantendo o equilíbrio entre a baixa moral e os péssimos costumes. Intrigante na mente de alguns era o poder que exerciam fazendo calar qualquer voz que ousasse sussurrar, dispunham de maneiras sinistras de resolver suas questões, nos momentos críticos, de impasse, tinha sempre a disposição algum macaco gordo que atuava quebrando todo tipo de galho.

     Para completar o zoo, surgiu não se sabe exatamente de onde, outro sujeito que se autodenominou mestre. Não tardou a se tornar conhecido e respeitado, falava exatamente o que o povo gostava de ouvir. Dentuço e orelhudo lembrava um autentico roedor, um Coelho de olhos bondosos e astucia invejável que andava sempre metido num terninho cinza risca de giz e numa graciosa gravata borboleta, na ponta de seu nariz debruçava uma pequena armação dourada arredondada, por cima dela calmamente perscrutava tudo. Diziam que era letrado e quando tinha oportunidade de se pronunciar falava tanto que chegava a espumar-lhes nos cantos da boca. Esse sim tinha conteúdo, matava a cobra e mostrava o pau, era como as pessoas diziam um articulador nato que estava sempre um passo a frente, atento a qualquer ruído farejava de longe uma tramoia.

     Incrível que em pouco tempo se engraçaram com extrema facilidade, laço de profunda amizade fortaleceu a relação dessa bicharada, pareciam feitos sob medida, nascidos um pro outro, uma confluência mágica que desembocava em águas pouco confiáveis onde nem jacarés ousavam a nadar de costas.
As histórias também são muito semelhantes em muitos aspectos. Na soma dos acontecimentos quase não diferem, parecem copias alteradas apenas por diferentes personagens e situações geográficas.
A opressão também não é coisa da modernidade, de longas datas alguns já vem pagando o pato dos outros, no mundo dos velhacos sempre aparece um mais audacioso, dotado de larga experiência, cheio de sagacidade que subjuga os que se consideram os experts na arte da sacanagem, e são por essas e outras que no reino dos egos as coisas tende a intrincar.
Nesse balaio de gatos organizaram numa empreitada grandiosa, seria o ápice de suas vidas, e afoitos designaram unanimemente Mestre Coelho frente às negociações, reconheceram sua aptidão para o caso, ironicamente o faminto roedor fora nomeado para cuidar da horta, a sorte estava a seu favor.
Navegaram de vento em popa levantando a bandeira dos pobres e oprimidos. Subsidiados, donativados, enlevados, vieram muitos mais ados do que os sonhados, a credibilidade aumentou a fama, o poder foi pras alturas, estava embevecido pelo tão almejado sucesso que não faziam conta do resto e como diria um bom rato que se preze, estavam com a faca e o queijo nas mãos, prontos pra degustação. O palco estava armado e a bicharada se exibia com muita vontade e elegância.
A horta prosperava o que era permitido aos olhos verem se revelava maravilhosamente surpreendente, se não fosse pelos túneis subterrâneos ninguém sonharia que aquilo em algum momento pudesse desabar.
A história sempre se mantem fiel à ordem dos acontecimentos, assim logo se confrontariam num acerto técnico, o nicho ecológico de alguém estava sendo invadida, a situação era tensa e o caso necessitava de uma imediata solução e por essas e outras que o circo começou a pegar fogo.
O que fora antes uma peça primordial no tabuleiro agora estava compelida ao descarte sem choros nem velas. Em conchavo determinaram por fim a ascensão de Mestre Coelho, não por desconfiarem que o tal estivesse fraudando o esquema, e sim por ansiarem tomar posse do meteoro ascendente, sua parte fora cumprida e seu destino traçado, pobre roedor.
De forma branda Mestre Coelho dotado de repentina humildade e compreensão não pestanejou em ceder seu lugar de destaque. A ambição desenfreada da pequena quadrilha não lhes permitiu visualizar o quadro escancarado que denotava a súbita mudança de comportamento de seu até então aliado. Em despedida fizeram-lhe até uma menção honrosa passando às mãos a chave da cidade em agradecimentos aos seus feitos em prol da tão sofrida classe pobre e marginalizada. Na ocasião não faltou fogos de artifícios e a banda tocou bravamente, aplausos e felicitações foram levantados em uníssono, discursos e galanteios vazavam pelas bordas do coreto, se Mestre Coelho por algum motivo aparentava satisfação, sua colheita estava segura, os outros por estarem prestes a se apoderarem da situação deliravam em meio à multidão em total ignorância.
O momento tão almejado chegou, até pássaros pareciam gorjear de alegria quando inesperadamente abriu-se uma comporta e a turbulenta água fétida passou a inundar e destruir, sucumbindo tudo à força da devastadora avalanche que sem piedade vinha soterrando todos os sonhos e devaneios.
Com Mestre Coelho destituído e sem paradeiro oficial não haveria quem arcasse com tal responsabilidade, ainda mais devido a toda aquela encenação protagonizada pelos três patifes envolvendo autoridade civil, política e religiosa. O mal estava feito, a situação era real e existente. Nenhuma alternativa oferecia uma saída satisfatória, suas mentes brilhantes opacas se tornaram, o infortúnio permeava as aflitas almas que já possuíam um pé no lugar destinado ao castigo eterno, bastava apenas um empurrãozinho, se encontravam sem redenção, na mira da foice.
Entretanto num ímpeto quase que desumano Sapo Boi emergiu do lamaçal do pecado com uma salvadora ideia, aquela imensa cabeça não se desenvolvera a toa, como celebro do bando fez jus ao seu titulo, teria que arrumar alguém inculto que na sua ignorância fosse cevado por promessas reluzentes e definitivamente infundadas, um bode expiatório seria a solução. E assim se fez. Não tardou em descobrir alguém que possuía um perfil tão peculiar, encontram um protagonista que preenchia todos os requisitos pré-determinados.
Foram tomados de vivas de alegria, estavam prontos pra restabelecer seu reino na floresta encantada. Por sua vez uma pobre Toupeira desavisada, de olhos pouco desenvolvidos, que nada sabia nada entendia e tampouco falava, aventurou-se nessa esperança irrealizável cavando estupidamente sua própria sepultura onde definitivamente teve seu encontro fatal com toda sorte de vermes e insetos. Que mundo cão.

Fim

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