Faisca

   Como se desfazer de algo que você gosta tanto? Como deixar ir algo que você gosta?

   As vezes não podemos ter a escolha do que fazer com algumas coisas, elas simplesmente tem que ser feitas. Faísca é o nome do Santana do meu avo, e apesar de querer muito ficar com ele preciso deixa-lo ir, vão dar um trato nele e algum sortudo vai comprar esse carro.

      Mas o que ele vai comprar?
      Somente um carro?
      Não, ele vai comprar uma lenda.

   Passei tempos incríveis e indescritíveis nesse carro, bons momentos, maus momentos, ótimos momentos, cada arranhão nele, cada peca quebrada, cada coisa que você precisa fazer para ele funcionar tem uma historia, desde o para-choque que esta todo arranhado pois constantemente se encontrava com a arvore que ficava na frente de sua garagem, passando pelo painel do ar condicionado que só acende a luz quando você da uns tapinhas, e o marcador de combustível que as vezes acende e conforme você anda o combustível vai subindo, e a chave que você precisa de um macete para girar, e tantas outras coisas.

   Lembro-me quando ele me ensinou como fazer para ligar o carro, apertando a chave antes de girar, ou todas as vezes que me espantava com a luz da reserva acesa mesmo com meio tanque de combustível, mas de todas histórias a melhor foi como surgiu o nome faísca…

   Certo dia iriamos viajar a tarde, ele chegou com o Santana e veio falar com a gente, falando que tinha levado o carro no concerto (que a gente descobriu que era o cara mais careiro da cidade) e agora o carro estava uma faísca… Quando a gente saiu eu desci a rua de casa, ao acabar a rua de casa, quando acelerei para subir a outra rua o carro parou de funcionar e me lembro que virei pra ele e falei, nossa é mesmo uma faísca, acendeu, subiu e apagou, e a partir dai começamos a chamar o carro de faísca.

   Hoje foi minha despedida, andei com ele um pouco pelas ruas de Bernardes, e quando parei em casa demorei um tempo para descer, fiquei lembrando de todas as viagens, das brincadeiras, das conversas, de tudo o que passamos naquele carro, e para minha surpresa começaram a descer lagrimas do meu rosto, só que dessa vez, não eram mais lagrimas de dor, mas era lagrimas de saudade, uma saudade gostosa da alegria pelo que ele deixou, assim percebi que nunca perdi ele, apesar de não poder mais ouvi-lo ele ainda esta comigo, seus ensinamentos, suas brincadeiras, suas brigas, isso nunca vai sumir, uma parte dele se foi, mas uma parte importante ficou comigo, e percebendo isso pude deixa-lo ir.

   Afinal não preciso de um carro pra me lembrar de tudo isso, o que importa já estava comigo e eu não sabia, esse carro é só mais uma historia como todas as outras, o carro não é uma parte dele, eu sou parte dele, eu e todos os que ele tocou com sua vida.

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2 Resultados

  1. Bianca disse:

    E mais uma vez as lagrimaas insisteeem em caair =/

  2. O vô era cheio disso mesmo. Lembro-me uma vez que ele levou o faísca no Dr. das chaves em Prudente, nunca mais pudemos usar a mesma chave…..

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