A Pira de Metal

   Era tarde da noite, José olhou para seu relógio mais uma vez e se corrigiu, já era madrugada, cansado esfregou os olhos e se debruçou sobre a caixa de dinheiro, o sinal abriu e o motorista acelerou, fazendo a curva para entrar na rua do cemitério. O caminho estava livre e completamente deserto e por isso o ônibus tomou velocidade, coisa que no horário de pico seria impossível, isso agradou a todos os passageiros, mais alguns quilômetros e estariam no terminal.

   Um sinal luminoso se acendeu no painel, próximo ao volante, seguido por um irritante, insistente e agudo som que indicava que o limite de velocidade havia sido ultrapassado, entretanto se alguém se incomodou com a velocidade, não se manifestou.

   José olhou para o fundo do ônibus, o turno da noite era menos movimentado, todavia compensava com a excentricidade de seus passageiros. Nos fundos um casal desavisado estava entretido em carícias como se ninguém pudesse vê-los, perto de umas das portas um homem negro e muito acima do peso cantarolava letras obscenas de uma musica qualquer, fazendo passos de uma dança imaginaria e se segurando para não tombar a cada frenada, um pouco mais a frente um senhora banguela com o cabelo desgrenhado acariciava um cobertor como se fosse um animal de estimação e o ultimo da trupe era um senhor que aparentava ser normal, sem nenhum mal odor e com roupas limpas e alinhadas, mas que era conhecido por todos naquela linha como um pervertido que nos momentos de lotação se aproveitava de meninas incautas.

   A lotação começou a desacelerar rapidamente, José virou seu olhar para o ponto e lá estava um rapaz usando um boné de aba reta, com as calças quase completamente arriadas e uma camiseta que provavelmente serviria em seu pai, de pronto não foi com a cara do rapaz, algo em sua fisionomia alertava o cobrador que nada de bom sairia daquele ser, principalmente aquela hora, entretanto não podia pedir para o motorista passar direto e não atender a solicitação de parada, era um dever recolher qualquer pessoa que solicitasse e não queria se meter em problemas com a diretoria da empresa, não novamente.

    O ônibus fez a parada completa e o rapaz começou a subir, mas ao contrario do esperado, não foi em direção ao cobrador para pagar sua passagem, se limitando a encarar o motorista em uma posição ameaçadora, sem demoras levantou a camisa e do cós da calça retirou uma faca e uma garrafa cheia de um liquido amarelado.

   – Todo mundo pra fóra! – Gritou o rapaz – Eu vou taca fogo nessa porra.

   Os passageiros agitados correram para fora, mas o motorista não se moveu.

   – Filho, por favor, não faça isso!

   – Cala a boca filho da puta! – Gritou o meliante, chutando o motorista com a sola do pé. – É meió sai, senão vai pega fogo junto com esse caraio.

   O motorista se levantou e lentamente saiu do ônibus o bandido abriu a garrafa e começou a esparramar o liquido no chão, José continuava paralisado em sua cadeira, sabia que tinha que sair dali correndo, entretanto seu corpo não obedecia o comando de seu cérebro.

   – Vai quere vira churrasquinho? – Disse o rapaz, apontando um objeto metálico parecido com um isqueiro.

   José se apavorou, mas isso o encheu de adrenalina, lembrou-se de Paulo, seu amigo de infância, qpirametalicaue havia morrido na semana anterior dessa mesma maneira, queimado em seu próprio ônibus, a raiva ascendeu por todo o seu corpo, subindo até sua cabeça, quando percebeu estava em pé a um passo do meliante com uma barra de ferro, que guardava atras de seu banco, em suas mãos. Com um movimento rápido golpeou o rapaz antes que ele conseguisse entender o que estava acontecendo o fazendo cair como um saco de arroz, se abaixou e pegou o isqueiro.

   – Agora quem vai queimá é você! – Disse o cobrador baixinho, acendendo o isqueiro e correndo para fora do ônibus.

   Quando desceu os degraus e saltou na calçada, tanto o motorista quando os passageiros o olhavam com uma mistura de pavor e respeito. Esperou por um momento cauteloso, não saberia qual seria a reação daqueles que naquele momento o julgavam em seus pensamentos, todavia, ao contrario do que pensou, as pessoas não o recriminaram e muito menos o entregaram para as autoridades, o que aconteceu foi exatamente o oposto, um a um as pessoas que estavam no local se aproximaram e o agradeceram.

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3 Resultados

  1. Uau que top Dan. Parabéns
    Adrielli Oliveira
    loading1blog.blogspot.com.br

  2. Edna Fagnani Correia disse:

    Muito bom! Valendo Boa reflexão!

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